Passeio leva turistas para lago com mais de 36 mil jacarés em reserva de RO

Durante o trajeto, os gigantes surgem para “acenar” e se exibir diante dos participantes. Em um vídeo publicado nas redes sociais, um dos animais aparece ao lado de uma embarcação e provoca gritos dos aventureiros.

Ao g1, o guia de turismo e proprietário da agência Extremo Norte, Jefferson Araújo, explicou que o passeio tem duração média de duas horas. O percurso segue até o Igarapé do Campo, área reconhecida pela diversidade de fauna e flora.

“A proposta dessa atividade é a contemplação da vida silvestre. Como o lago abriga cerca de 36 mil jacarés-açu, jacaré-tinga e jacaré-coroa, há grandes possibilidades de observá-los”, detalhou.

Ver um jacaré-açu de perto é o ponto alto da jornada. Segundo o guia, os turistas reagem com uma mistura de espanto e fascínio.

“Impressiona, por conta do porte do animal, mas a vivência causa muito encantamento. É encontrar uma Amazônia bruta, porém extremamente harmoniosa.”

De acordo com Jefferson, os passeios na Resex são conduzidos por moradores locais, que conhecem bem o comportamento dos bichos e os limites seguros da observação. Essa condução comunitária garante tranquilidade e proteção aos grupos.

“A administração é compartilhada com o ICMBio. Para visitar, é necessário solicitar autorização, informando o número de pessoas e o período desejado”, afirma Jefferson.

Durante a estação seca (de junho a outubro), as chances de avistar jacarés aumentam, já que eles se concentram em áreas menores do lago. Já na época chuvosa (de novembro a maio), costumam ficar mais dispersos e discretos entre as águas.

Turismo sustentável e comunidade engajada

O turismo no Lago do Cuniã começou a ser planejado em 2019, a partir de um plano de visitação elaborado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com recursos de compensação ambiental da Secretaria de Meio Ambiente (Sema). A proposta era criar um modelo de Turismo de Base Comunitária, valorizando as comunidades ribeirinhas da região.

Com a chegada da pandemia, o projeto foi interrompido e só retomado em 2021, com o apoio do Sebrae. Segundo a coordenadora do projeto, Tatiana Sadeck, foi realizado um levantamento das ofertas turísticas, um inventário das atividades que poderiam ser desenvolvidas e até uma identidade visual, criada junto com os próprios moradores.

“A gente montou a logo com os comunitários, fez um mapa turístico, vídeos promocionais e começou a promover eventos voltados para a cultura ribeirinha, mais beiradeira”, conta Tatiana.

O pré-lançamento nacional do projeto aconteceu na ABAV Expo, no Rio de Janeiro, onde o destino Lago do Cuniã foi apresentado a operadoras de turismo e empresários de todo o país.

“Em apenas 20 vagas, conseguimos classificar três empresários para participar de rodadas de negócios da Embratur com o destino Lago do Cuniã”, destaca Tatiana.

Além do passeio para avistar jacarés, o plano inclui experiências ligadas à fauna e flora, à gastronomia amazônica e às atividades extrativistas das comunidades locais, como o manejo da castanha, do açaí e da farinha.

Atualmente, o passeio é coordenado pela própria comunidade, em parceria com o ICMBio. Mais do que emocionar, a iniciativa tem um propósito maior: conservar a biodiversidade e fortalecer o vínculo entre as pessoas e o meio ambiente.

“Um turismo educativo amplia a conscientização sobre a relevância dos ecossistemas locais e a necessidade de preservar os jacarés e seu habitat”, ressalta o guia Jefferson Araújo.

Resex Lago do Cuniã

RESEX fica localizada no baixo Madeira em Porto Velho (RO) — Foto: Acervo/ICMBio NGI Cuniã Jacundá

Segundo levantamento do ICMBio, a Resex possui o lago principal, chamado Cuniã, cercado por outros 63 lagos com nome e localização definidos. Para chegar ao local, é preciso descer o rio Madeira, em direção ao Amazonas.

A interação com os jacarés ocorre principalmente quando os moradores utilizam os rios e igarapés para atividades de pesca ou navegação.

A única possibilidade de os animais se aproximarem das áreas habitadas ocorre durante o “inverno amazônico”, período de maior volume de chuvas, quando os lagos transbordam e alcançam as partes mais elevadas da comunidade, onde estão as residências.

Conforme estudos populacionais realizados pelo ICMBio, a população de jacarés é estimada em 36 mil indivíduos das espécies jacaré-açu e jacaré-tinga. Apesar da quantidade, não há superpopulação dessas espécies na região.

Segundo os moradores, essa medida é essencial para manter o equilíbrio da cadeia alimentar e contribui para a renda e segurança da comunidade, especialmente dos pescadores.

Moradores da comunidade trabalham com manejo de jacaré — Foto: Acervo/ICMBio NGI Cuniã Jacundá

Passeio leva turistas para conhecer lago com mais de 36 mil jacarés em RO — Foto: Redes sociais

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